Archive for Setembro, 2010

Raiz da Alma no CCB – O Semba em Lisboa

Setembro 8, 2010

ENCONTRO ENTRE VIOLÕES E AS PERCUSSÕES ÉTNICAS NO SEMBA

PAULO FLORES | RAIZ DA ALMA no CCB dia 24/Outubro às 21:00
O músico, cantor e compositor Paulo Flores apresenta-se pela primeira vez no CCB com o seu novo trabalho, no qual revisita o semba tradicional em busca dos seus segmentos rítmicos originais.

“este disco é a continuação de uma estratégia que pretende eleger o sem…ba como memória colectiva da cultura angolana, símbolo da luta pela independência e da afirmação da Angolanidade” – Paulo Flores

Hereros

Setembro 8, 2010

Uma das prendas dos meus 40 anos e que eu amei, o livro “Hereros” de Sérgio Guerra. A exposição, conjunta em Lisboa e em Luanda, está cá até 18/Setembro.

A memória, sem esquecimento

Inaugurada que foi a exposição “Hereros”, conto a história de como tudo começou: Junho, homenagem a Pina Bauch no teatro São Luiz. Tendo sido convidado, rumei ao Chiado. Depois da iniciativa, passando pelo largo do teatro São Carlos, vejo, noutro passeio, José Eduardo Agualusa, escritor que admiro, acompanhado por duas pessoas. Estando o Chiado invadido de gente, acabamos por não nos cruzar. Segui caminho em direcção à Brasileira. Daí a pouco rumei ao carro, na direcção oposta. Quando passava por esplanada de restaurante, reparo que o José Eduardo estava sentado, de costas para mim, numa das mesas. Estando ele acompanhado e embrenhado com o que lhe mostravam, decido não o interromper e seguir caminho mas ao passar não pude deixar de ver, de soslaio, o que estava em cima da mesa. Mais adiante, já tendo passado por eles e estando próximo do carro, decido prestar atenção ao acaso que, por duas vezes, me fazia cruzar com pessoa que estimo e não via há anos. Chegado à mesa, vendo-o agora de frente, cumprimento-o e ele, gentilmente, solta para os presentes “está aqui um galerista”, apresentando-me. Depois, tudo foi bastante rápido: o Sérgio Guerra, logo ali, mostrou-me o trabalho fotográfico sobre os herero e falou-me da exposição em Luanda, aprazada para dali a um mês. Mostrei-lhe interesse em acolher aqui a exposição. Foi assim um acaso fantástico que me fez conhecer o Sérgio e o seu trabalho artístico sobre uma cultura praticamente desconhecida. O resto da produção da mostra foi toda tratada por correio electrónico e telefone. É, de facto, inimaginável como foi possível montar isto em mês e meio de trabalho à distância. O Sérgio voltou para Angola passado dois dias, só regressando a Lisboa para a inauguração, a 19 de Agosto. Sacrificadas as férias, mantiveram-se as portas abertas num mês tradicionalmente fraco para actividade galerística. Mas, no fim das contas, a grande adesão do público e meios de comunicação à exposição confirma que não há alturas más quando os conteúdos são bons. Prova também a possibilidade de se criarem sinergias culturais efectivas com Angola, onde a exposição decorreu em paralelo, no Museu de História Natural, em Luanda. Curiosamente, é a primeira vez que uma exposição decorre em simultâneo nos dois países…

Há que distinguir as duas faces de Angola: a do progresso, com a sua cultura urbana em forte expansão e a modernização dos seus sistemas essenciais, da economia à habitação, ao comércio, etc. Do outro lado, há que identificar a cultural, ancestral, praticamente desconhecida não só em Portugal mas também em Angola, fruto de um passado vivido em grande aceleração e impregnado de processos trágicos, da colonização à guerra civil fratricida que fez com que muita gente pensasse que já nada, dessas culturas étnicas, fosse passível de existir ainda. É aí que o trabalho do Sérgio surge como factor diferenciador. Dá a conhecer essa outra face que estava escondida, refugiada. Claro que, antes dele, já o magnífico trabalho do recém-falecido Ruy Duarte de Carvalho (que é evocado na exposição) trazia para o conhecimento público os herero mas fazia-o de forma, diria, especializada, o que, sendo bom, limita o acesso ao público menos esclarecido. A diferença é que o Sérgio mostra os HERERO sem procurar limitar o olhar às questões que ele próprio, enquanto autor, poderia considerar essenciais. Ele abre a objectiva para os mostrar sem legendas. É um trabalho de silêncio autoral. Quem fala são os próprios, através de depoimentos, fixados no álbum que acompanha a mostra, e da presença, quase majestática, nas fotografias em exposição.

Entre outras coisas, o que me fascina na exposição “Hereros”, é a possibilidade de conhecimento das nossas raízes identitárias mais profundas, em estado puro. Quando digo nossas, não me refiro apenas a Angolanos e portugueses, refiro-me ao ser humano como um todo. O ser humano partiu de África para o resto do mundo e é admirável que ainda existam vestígios desses povos iniciais, quase intocados, em grupos como os herero, que permaneceram, resistindo a várias tentativas de aniquilamento, seja por via da escravatura, do colonialismo, da guerra ou da fome.

Há que dizer que a arte que me interessa é a que tem em si uma validade universal. Partindo de referenciais locais, o seu autor aborda-os numa perspectiva universal. Neste caso, não vislumbro aquilo que vulgarmente se designa por exotismo africano, espécie de sub-produto indiferenciado que os vários povos africanos foram produzindo para agradar ao gosto de uma certa burguesia europeia. Percebi, no trabalho do Sérgio Guerra, uma realidade discursiva que combina, desde logo, dois sentidos diferenciados: o olhar tropical, inscrito no seu código genético brasileiro, com a vivência árida do deserto, onde habitou com os herero e lhes fixou os gestos e o sentir, num registo plástico, fotográfico, pleno de universalidade. Não é já de África que se fala mas sim de uma cultura mundializada através da óptica do autor. De África, como que espelhando uma realidade unívoca, singular, simultaneamente particular e global, sem contradição e paradoxo. Há muitas Áfricas em África, assim como há muitas Europas na Europa. Só o desconhecimento nos pode fazer cair em generalismos e isso é tão válido quando falamos de África como quando falamos de América, Europa, China ou Índia. É extraordinário o sentido épico deste povo, a sua capacidade de sobrevivência, a sua beleza. Lutam por um ideal que é a preservação da sua cultura, é grandioso. Apetece compará-los ao Facteur Cheval e ao seu Palácio Ideal construído entre o fim do Século XIX e o princípio do XX, na mesma altura em que os herero resistiam a tentativa de extermínio Alemão. Tragédia ocorrida entre 1904 e 1907. Uma vergonha mais, a somar às duas grandes guerras, que os alemães carregam. Eles e toda a humanidade. Curioso, chocante, é que só em 2004, cem anos sobre o massacre que dizimou 80% da população herero, as autoridades alemãs tenham pedido desculpa por essa barbárie…

Carlos Cabral Nunes – Comissário da exposição Hereros e director artístico da Perve Galeria

Agosto de 2010


Seguir

Get every new post delivered to your Inbox.

Junte-se a 425 outros seguidores