Archive for the ‘Cultura’ Category

O Talento da Utopia

Fevereiro 21, 2011

Um livro de rara alegria para Angola 20 de Fevereiro, 2011 Foi com os versos de Mário António “ Noites de Luar no Morro da Maianga” que comecei a imaginar o livro “Paulo Flores: o talento da utopia” de Gabriel Baguet Jr. O magnífico exemplar, que o seu autor teve a gentileza de me oferecer, ultrapassou fronteiras, alfândegas, sem carimbos, nem passaporte para vir morar comigo na Maianga, chegou bem protegido, sedutor, quase escondido, através de uma vasta teia de cumplicidades afectivas, passando das mãos do autor para as do Paulo que o transportou desde Lisboa, de onde o seu pai “Cabé” o levou carinhosamente até à Maianga, com açúcar e afecto.

Gabriel Baguet Jr. tem dedicado exaustivamente nos últimos anos todo o seu esforço, toda a sua brilhante inteligência, sensibilidade e vitalidade ao estudo de personalidades e figuras da Nossa Terra – da nossa querida Angola. A sua volumosa e prestável Fotobiografia de Óscar Ribas, onde com a paciência e enorme criatividade disseca, escalpeliza, os múltiplos aspectos da atraente personalidade do autor de “Uanga” (feitiço) constitui um testemunho inequívoco e privilegiado de um trabalho paciente, sério, isolado, sobre um tema crucial acerca do nosso futuro comum e, ao mesmo tempo, uma homenagem justíssima a um autor verdadeiramente grande – “um cego que nos ensinou a ver”.

Desta vez, sempre atento ao que de melhor acontece no mundo e ao que se passa na Nossa Terra, decidiu homenagear um dos mais criativos artistas angolanos: Paulo Flores. “Paulo Flores: o talento da utopia” é um raro exemplar que arquiva numerosa documentação, com destaque para saborosos textos e depoimentos de diversos autores sintonizados com a urgência da verdadeira arte (Carlos Ferreira, Luísa Rogério, entre outros), uma exaustiva discografia, entrevistas com o cantor e compositor e também largas dezenas, algumas muito interessantes, fotografias de Paulo Flores, sua família e amigos, que dão uma imagem, a esse nível, do seu percurso existencial e musical, dos seus lugares de predilecção e afectos, do ambiente dos concertos aqui e lá longe, dos seus amigos e ainda dos seus companheiros e cúmplices de luxo – os músicos notáveis de quem se tem rodeado, comportando ainda vários recortes de artigos de jornais e algumas gravuras. Um livro de rara alegria para os olhos de Angola que não pode deixar escapar uma lágrima de emoção pela classe e talento de um filho distinto.

A “minha” estória com o cantor Paulo Flores é parecida com as estórias das flores silvestres. Crescem, aparecem, voltam a crescer, escondem-se, surgem teimosamente, mesmo nos carris dos comboios. Por outras palavras: estórias que têm, como na Matemática, “números irracionais” e “tabelas de acaso”. Acontecem. É assim. Coisas insondáveis da vida, “Coisas da terra” – como diz uma canção do Paulo.

Não sei já, com rigor, onde é que foi que nos cruzámos pela primeira vez, que esquina ou avenida, beco ou boteco, terá condicionado as nossas vidas. E o nosso encontro. Havia (e há) a música entre nós. E do resto, sinceramente, não me recordo com rigor. São já tantos anos… Lembro – isso sim – de um jantareco improvisado lá em casa, na Maianga, em que se mistura o que vai havendo e se fala das nossas coisas, das nossas esperanças. Ele acabara de chegar de Lisboa onde já trabalhava como cantor e músico. Achei oportuno alargar – nessa noite – o ciclo de amigos e prolongar a fogueira. Convidei o José Manuel Nunes – provavelmente o ser humano que conheço com a maior paixão pela música e por Tom Jobim – sempre ligado a essas coisas bonitas como são a música, o cinema, o teatro, a poesia. Convidei igualmente o Manuel Gomes dos Santos – tremendo ouvido, grande violão, homem que me habituei a estimar desde aquele salto único que se dá entre os calções e as blue jeans. Nessa noite de uma enorme felicidade, mais do que o panké carinhosamente preparado pela Magui, a música é que era, de facto, o pretexto. E tal como o violão foi passando de mão em mão, a conversa foi fluindo, correndo fácil. A empatia foi-se instalando. E já muito depois do sono dos outros e da tranquilidade da cidade, desembarcámos num simpático clube na baixa luandense onde o Paulo Flores – depois de alguma insistência – varreu, varreu mesmo, dois sembas amparado pela segura Banda Maravilha. Olhe que coisa mais linda, mais cheia de graça… Dessa noite prodigiosa guardarei ternamente – e com carinho – várias recordações, algumas estórias. E uma constatação: a curiosidade pelo passado e História da música angolana e a humildade que o nosso “convidado” foi revelando à medida que o tempo foi cumprindo o seu inexorável trabalho…., impressionaram-me francamente. Ainda me lembro – se me lembro – de ter comentado com o Zé Nunes e o Mané Gomes “ se este miúdo continua assim, vai ter futuro, vai longe”.

Anos depois constato que não houve engano. Acertei. Tenho-lhe seguido o rasto e ouvido a música. O percurso recente de Paulo Flores não deixa dúvidas. A sua música convive comigo mais e melhor desde esse encontro e tem sido uma bela amizade. Paulo Flores ganhou individualidade, aproximou-se mais de uma voz singular – à custa de muito trabalho e de investigação junto dos “mais-velhos”, plenamente consciente de que existem muitos detalhes, muitas estórias, que não estão nos livros e o semba não se aprende na Faculdade, mantendo sempre uma forte ligação à tradição, olhando para o que se vai fazendo noutras paragens, mas interrogando sempre, cada vez mais, o que há-de vir (oiça-se por exemplo “Manico” de Kituxi e Makalakatu, que se mantém actualíssimo). Não se trata apenas ter de fazer a estrada que não se conhece, mas que se sabe estar ali, mas de fazer-se à estrada, fazendo-a. Como sempre o fizeram os nomes grandes da música angolana: Luís Gomes Sambo, Liceu Vieira Dias e o Ngola Ritmos (o sol da nossa música popular das cidades), José Oliveira Fontes Pereira e o seu irmão Euclides Fontes Pereira (Fontinhas), Catarino Barber, elemento preponderante dos Kimbandas do Ritmo (na época do Botafogo), Rui Mingas, António Pascoal Fortunato (Tonito) – um dos mais inspirados compositores angolanos de sempre -, Eduardo Garcia (Duia) – autor do belíssimo “ Lamento”- referência incontornável e modelo para muitos instrumentistas angolanos, José Cordeiro, inspirado compositor do Lobito, Tchikuto, louvável autor, Moisés Mulambo, exímio criador, irmão do Pincha, um dos maiores cómicos dos anos 1950 e 1960, o guitarrista autodidacta José Viola, Raul Aires Peres (Raul Ouro Negro) que levou – com Milo Vitória Pereira – a música de Angola para o Olympia e para os grandes palcos do mundo e para um estatuto da maior dignidade, as manas Belita e Rosita Palma e Ana Maria Mascarenhas (AMM), brilhantes compositoras. Oiça-se a musicalidade imensa da poética de Adelino Tavares da Silva musicado por AMM. E estudiosos, críticos e divulgadores com profundo conhecimento, tais como Jomo Fortunato, Dionísio Rocha, Amadeu Amorim e Mário Rui Silva. Entre essa noite prodigiosa e Xê Povo (um dos meus discos de cabeceira), a grande diferença do canto/ música de Paulo Flores foi a sua maior confiança.

O cantor que sempre deu a entender ter ideias claras sobre a música, decidiu-se agora desarrumá-las para as tornar mais claras e transparentes. E, especialmente, para tornar-se a si próprio mais claro. Devo confessar baixinho que sempre desconfiei dos músicos sem memória. Estou convencido que se enganam os músicos que não se interessam nem estudam a sua própria história. As raízes não bloqueiam o crescimento, ajudam a crescer mais forte. Também considero que as influências enriquecem em vez de empobrecer. Tem sido esta a praxis de Paulo Flores. Uma coisa é ficar prisioneiro, amarrado ao passado, por incapacidade de usá-lo para o futuro. Outra é desprezá-lo, julgá-lo inútil, tornando-o por travão em vez de catalisador; desprezo infelizmente que se vai constatando com alguma frequência entre os músicos angolanos mais jovens, na procura febril do sucesso fácil. “Nguxi” de Rosita Palma é um excelente exemplo que Paulo Flores nos dá acerca da tarefa fundamental na luta pela memória contra o esquecimento. Não é necessário conhecer a infância musical de Paulo Flores, saber-lhe o currículo académico e existencial para sentir que a sua voz e a sua música têm memória. O que em termos artísticos em geral – e na música particularmente – é tão importante como saber ouvir os outros. Só assim – nesta envolvente procura no que de melhor se faz “fora-de-portas” e na leitura atenta e crítica do passado-terá sido possível chegar, por exemplo, a Xê Povo- uma obra ímpar, fundamental. Xê Povo é uma bela crónica em que se misturam palavras, sentimentos, percursos, sons e tantas outras coisas sobre um país onde a pobreza e a riqueza estão cada vez mais ostensivas; crónica musical que necessariamente anda à volta de uma cidade: Luanda – uma beleza à beira do abismo. Xê Povo é um Blues. Um CD que arrebata, sem arrebatamento, que se reforça e renova a cada audição. É uma longa estória saturada de makas, tristeza e de esperança. É Belina, de Artur Nunes. Também é Nguxi, de Rosita Palma.

Mas sobretudo é Xê Povo, a mensagem de vida de Paulo Flores:

…Olha só tanta poeira nas calinas do muangolê

Olha só tanta poeira nas kinamas do muangolê

Olha os buracos da estrada nos caminhos do muangolê

Olha a força da chegada no destino do muangolê…

Xê Povo é, enfim, a esperança que cresce do desassossego.

Xi da Muxima, Saravá Paulo Flores. Daí a urgência deste “Talento da Utopia”.

Paralelamente à sua trajectória académica, de jornalista e de intelectual empenhado, Gabriel Baguet Jr. conjuga de forma ímpar na sua obra –infelizmente pouco reconhecida- a defesa da memória cultural angolana com a aceitação dos temas e desafios urgentes que a mundialização das nossas vidas comporta.“Paulo Flores: o talento da utopia” é também um testamento da vida e dos nossos percursos e uma prova indesmentível que Gabriel Baguet Jr. – autor e coordenador deste belíssimo exemplar – continua a defender esta necessidade imperiosa para a nossa sobrevivência enquanto cidadãos deste mundo e desta Terra: “Vamos descobrir Angola”.

Jerónimo Belo in JA (20/Fevereiro)

Once In a Lifetime

Outubro 4, 2010

*London 2/Out/2010*

O meu bilhete ...

Todos os anos me ofereço uma prenda de anos, não me lembro em que ano comecei, mas virou tradição…a minha tradição.

Este ano, fiz 40, gosto de datas, gosto de comemorar datas, talvez a minha bússola para que eu saiba sempre onde está o norte.

Este ano, fiz 40, uma data especial, porque alguém disse que era especial, e eu gosto de datas. A minha prenda este ano, tinha que ser “a prenda”e, e foi tudo isso, tudo o que eu precisava.

Concerto do Sting no Royal Albert Hall em Londres. Não na Arena O2, não num estádio, no mítico Royal Albert … e tem mais … com the Royal Philharmonic !!!

Tudo era mágico, tudo foi mágico. A sala, a orquestra, o maestro Steven Mercurio – amei – os músicos do Sting, Dominic Miller sempre, Jo Lawry como voice back up singer – que voz , os arranjos para a orquestra,  e Sting, o músico, o homem, o dom, a voz, a personagem, a humanidade e principalmente, a humildade.

Que pontaria a minha, mesmo sem me lembrar, ele fazia, e fez, 59 anos no sábado. O que ajudou mais um pouco à magia para aquele dia, aquela noite, aquele concerto, ser especial. Cairam balões do tecto, centenas de balões coloridos enquanto cantavamos HappyBirthday to you, Sting !!!

Posso afirmar, sem hesitação, que foi o concerto da minha vida … até ao próximo … ;)

Deixo-vos com uma review – by Roger Friedman – onde podem sentir mais um bocadinho do que eu senti, ahhhh, e o actor Sthepen Fry (lembram-se do psicólogo grande, da série Bones, que também cozinhava? é ele) esteve ao meu lado :)

Multi colored party balloons rained down on rock star Sting Saturday night in London’s famed Royal Albert Hall as he celebrated his 59th birthday. It was the second of two sold out shows in two days at the famed music hall.

At first he didn’t look too happy – after all, 59 is a number, and the forever leader of the Police could easily pass for a decade younger. But he took it in stride, with guests in the jam packed audience including wife Trudie Styler, his two sisters, director Terry Gilliam, and British actor/author Stephen Fry all rocking out.

Later, the consummate musician said of being enshrouded in the surprise: “I was trying to sing, after all. I had a song to do!” He protested too much, I think. He didn’t know what was coming, but said his faithful road manager, Billy Francis, “had had a look on his face all day. I knew he was up to something.”

By the end of the song he was playing, ‘She’s Too Good to Me’, Sting gave in to the mischief as the balloons piled up around him.

I’d caught up with Sting’s classically orchestrated show on Thursday in Paris, where the audience – again, sold out to the rafters in the Bercy theater – stamped their feet like thunder to show their unanimous approval of the two hour set that takes a couple dozen of Sting’s well known songs and reimagines them in pop-classic settings.

In front of a French audience, Sting – who can often seem school teacher serious on stage – connected, and the crowd loved him. He belly danced to ‘Desert Rose’ and two stepped with his band through the just-added ‘Cowboy Song’. During emotional numbers like ‘When We Dance’ and ‘Why Should I Cry for You’ his passion resonated with the audience.

In London, where performing at the Royal Albert is always a milestone, two sold out nights is quite a feat. Saturday night’s show was extra special. At the start, Sting told the crowd: “It’s my 59th birthday, I’m starting my 60th year.” Many in the audience were young enough to be his children’s ages. Sting is either at the low end age wise of the classic rock star generation, or an elder statesman to the New Wave crowd. It just depends on how you look at it. For a lot of his audience, it’s seeing a rock “artist” at work for the first time after daily exposure to pre-packaged commercialism.

The way Sting looks at it, he’s a kid. “I love this show,” he told me a couple of times over the Paris to London period. “I could do it forever.” And you can see why. This huge catalog of songs is so well constructed that its transformation to the symphonic seems natural. Unlike other rockers who’ve tried to “mellow out” their music as they’ve aged, Sting’s transit in this direction comes off as ebullient and cool.

He not only looks good, but he sounds like a million bucks, too. At the Royal Albert, I had a seat with an unusual angle toward the stage, just above and to the side of the singer’s microphone. Sting is by himself on that spot, sort of home plate, where there’s no cheat sheet for lyrics, no augmentation for his vocals other than his beautiful, soulfully voiced back up singer, Jo Lawry. He’s out there on his own, which is sort of quaint in the era of Auto Tune and computerized gimmicks.

After Saturday’s show, a few friends and family made it through a drenching rain across London to the narrow basement club Bungalow 8. Sting’s two sisters, Angela and Anita, and Trudie’s sister, Heather, were among the guests sprinkled through a room of well wishers. Fry – a large presence in the small room – commandeered the bar area and helped reach drinks over the heads of models and other Bungalow types. A promised “stripper” turned out to be an athletic pole dancer, which was maybe a sign of the times.

Another sign: while Sting may be 59, his 20 year old daughter with Styler, Coco Sumner, has taken London by storm. Following in the footsteps of dad and older brother Joe (whose group Fiction Plane played Paris a couple of nights before Sting), Coco has her first big hit in the charts here with ‘In Spirit Golden’. On the train from Paris to London, a proud papa played it for me from his IPad, and said: “That’s the best thing I’ve heard in two years.”

© Showbiz411 by Roger Friedman

Fica aqui também a set list de sábado, podem imaginar, 2 horas de show, passando por tudo isto?!
Sting.com

Hereros

Setembro 8, 2010

Uma das prendas dos meus 40 anos e que eu amei, o livro “Hereros” de Sérgio Guerra. A exposição, conjunta em Lisboa e em Luanda, está cá até 18/Setembro.

A memória, sem esquecimento

Inaugurada que foi a exposição “Hereros”, conto a história de como tudo começou: Junho, homenagem a Pina Bauch no teatro São Luiz. Tendo sido convidado, rumei ao Chiado. Depois da iniciativa, passando pelo largo do teatro São Carlos, vejo, noutro passeio, José Eduardo Agualusa, escritor que admiro, acompanhado por duas pessoas. Estando o Chiado invadido de gente, acabamos por não nos cruzar. Segui caminho em direcção à Brasileira. Daí a pouco rumei ao carro, na direcção oposta. Quando passava por esplanada de restaurante, reparo que o José Eduardo estava sentado, de costas para mim, numa das mesas. Estando ele acompanhado e embrenhado com o que lhe mostravam, decido não o interromper e seguir caminho mas ao passar não pude deixar de ver, de soslaio, o que estava em cima da mesa. Mais adiante, já tendo passado por eles e estando próximo do carro, decido prestar atenção ao acaso que, por duas vezes, me fazia cruzar com pessoa que estimo e não via há anos. Chegado à mesa, vendo-o agora de frente, cumprimento-o e ele, gentilmente, solta para os presentes “está aqui um galerista”, apresentando-me. Depois, tudo foi bastante rápido: o Sérgio Guerra, logo ali, mostrou-me o trabalho fotográfico sobre os herero e falou-me da exposição em Luanda, aprazada para dali a um mês. Mostrei-lhe interesse em acolher aqui a exposição. Foi assim um acaso fantástico que me fez conhecer o Sérgio e o seu trabalho artístico sobre uma cultura praticamente desconhecida. O resto da produção da mostra foi toda tratada por correio electrónico e telefone. É, de facto, inimaginável como foi possível montar isto em mês e meio de trabalho à distância. O Sérgio voltou para Angola passado dois dias, só regressando a Lisboa para a inauguração, a 19 de Agosto. Sacrificadas as férias, mantiveram-se as portas abertas num mês tradicionalmente fraco para actividade galerística. Mas, no fim das contas, a grande adesão do público e meios de comunicação à exposição confirma que não há alturas más quando os conteúdos são bons. Prova também a possibilidade de se criarem sinergias culturais efectivas com Angola, onde a exposição decorreu em paralelo, no Museu de História Natural, em Luanda. Curiosamente, é a primeira vez que uma exposição decorre em simultâneo nos dois países…

Há que distinguir as duas faces de Angola: a do progresso, com a sua cultura urbana em forte expansão e a modernização dos seus sistemas essenciais, da economia à habitação, ao comércio, etc. Do outro lado, há que identificar a cultural, ancestral, praticamente desconhecida não só em Portugal mas também em Angola, fruto de um passado vivido em grande aceleração e impregnado de processos trágicos, da colonização à guerra civil fratricida que fez com que muita gente pensasse que já nada, dessas culturas étnicas, fosse passível de existir ainda. É aí que o trabalho do Sérgio surge como factor diferenciador. Dá a conhecer essa outra face que estava escondida, refugiada. Claro que, antes dele, já o magnífico trabalho do recém-falecido Ruy Duarte de Carvalho (que é evocado na exposição) trazia para o conhecimento público os herero mas fazia-o de forma, diria, especializada, o que, sendo bom, limita o acesso ao público menos esclarecido. A diferença é que o Sérgio mostra os HERERO sem procurar limitar o olhar às questões que ele próprio, enquanto autor, poderia considerar essenciais. Ele abre a objectiva para os mostrar sem legendas. É um trabalho de silêncio autoral. Quem fala são os próprios, através de depoimentos, fixados no álbum que acompanha a mostra, e da presença, quase majestática, nas fotografias em exposição.

Entre outras coisas, o que me fascina na exposição “Hereros”, é a possibilidade de conhecimento das nossas raízes identitárias mais profundas, em estado puro. Quando digo nossas, não me refiro apenas a Angolanos e portugueses, refiro-me ao ser humano como um todo. O ser humano partiu de África para o resto do mundo e é admirável que ainda existam vestígios desses povos iniciais, quase intocados, em grupos como os herero, que permaneceram, resistindo a várias tentativas de aniquilamento, seja por via da escravatura, do colonialismo, da guerra ou da fome.

Há que dizer que a arte que me interessa é a que tem em si uma validade universal. Partindo de referenciais locais, o seu autor aborda-os numa perspectiva universal. Neste caso, não vislumbro aquilo que vulgarmente se designa por exotismo africano, espécie de sub-produto indiferenciado que os vários povos africanos foram produzindo para agradar ao gosto de uma certa burguesia europeia. Percebi, no trabalho do Sérgio Guerra, uma realidade discursiva que combina, desde logo, dois sentidos diferenciados: o olhar tropical, inscrito no seu código genético brasileiro, com a vivência árida do deserto, onde habitou com os herero e lhes fixou os gestos e o sentir, num registo plástico, fotográfico, pleno de universalidade. Não é já de África que se fala mas sim de uma cultura mundializada através da óptica do autor. De África, como que espelhando uma realidade unívoca, singular, simultaneamente particular e global, sem contradição e paradoxo. Há muitas Áfricas em África, assim como há muitas Europas na Europa. Só o desconhecimento nos pode fazer cair em generalismos e isso é tão válido quando falamos de África como quando falamos de América, Europa, China ou Índia. É extraordinário o sentido épico deste povo, a sua capacidade de sobrevivência, a sua beleza. Lutam por um ideal que é a preservação da sua cultura, é grandioso. Apetece compará-los ao Facteur Cheval e ao seu Palácio Ideal construído entre o fim do Século XIX e o princípio do XX, na mesma altura em que os herero resistiam a tentativa de extermínio Alemão. Tragédia ocorrida entre 1904 e 1907. Uma vergonha mais, a somar às duas grandes guerras, que os alemães carregam. Eles e toda a humanidade. Curioso, chocante, é que só em 2004, cem anos sobre o massacre que dizimou 80% da população herero, as autoridades alemãs tenham pedido desculpa por essa barbárie…

Carlos Cabral Nunes – Comissário da exposição Hereros e director artístico da Perve Galeria

Agosto de 2010

José Luís Peixoto

Novembro 16, 2009

Gosto cada vez mais da escrita em crónica de José Luis Peixoto. Aliás não conheço a outra, a dos livros, por culpa minha claro. No outro dia chamou-me a atenção a crónica que não era contra os taxistas. Uma situação pela qual já passei diversas vezes – quem não passou – o medo dos taxistas no aeroporto da Portela, medo sem aspas mesmo. E o final feliz com o taxista brasileiro.

E hoje, a crónica “Sózinho, como um cão”. Talvez a escrita tão “fácil”, tão perto de nós, palavras que quase saiem do papel e nos tocam, de tão chegadas. A dor que sentimos não é a dor dele, o ser humano é egoísta e pensando bem, nós nem nos conhecemos. A dor que sentimos é a nossa própria dor, a dor de um passado, de um presente ou até de um futuro que não sabemos mas imaginamos, porque afinal, qual de nós nunca se sentiu sózinho, como um cão?

“…Não ia pensar naquilo que ainda sinto por ela, não ia pensar naquilo que ela pode estar a fazer agora (ler esta crónica), não ia pensar que ela me ligava quando tinha dúvidas de gramática ou quando encontrou uma lagartixa (sardanisca) na casa dela. Porque agora ela já não me liga. Deve ter encontrado outra pessoa a quem ligar.”

Vai chegando boa música

Novembro 16, 2009

retirada da net

Tou maravilhada com o último cd de Joss Stone – Colour Me Free. Que maturidade musical com apenas 22 anos. Se fosse pontuar cada item, a capa levava nota 10 (mas já li críticas brutais) . A produção do álbum é assinada com Jonathan Shorten e Conner Reeves que também produziram o 2º álbum “Mind, Body & Soul”.

Faixas:

  • Free Me
  • Could Have Been You
  • Parallel Lines (Feat. Jeff Beck & Sheila E.)
  • Lady
  • 4 And 20
  • Big ol Game (Feat. Raphael Saadiq)
  • Governmentalist (Feat. Nas)
  • Incredible
  • You Got The Love
  • I Believe It To My Soul (Feat. David Sanborn)
  • Stalemate (Feat. Jamie Hartman)
  • Girlfriend On Demand

Em Lisboa, no coliseu a 15 de Fevereiro, eu tou lá !!!

retirada da net

E também Simone “na veia”. Já lançado em Setembro mas que só agora tenho o prazer de ouvir, e adorar! Um disco completamente made in Simone. Esta capa já não tão conseguida [ainda não consegui colocar a foto, mas vou por].

 Pela primeira vez a trabalhar com Rodolfo Stroeter, que divide com Simone a produção e a direcção musical do cd: “ Eu sempre estou ligada em tudo o que acontece na feitura do disco, mesmo quando eu não assino, estou produzindo junto”, diz Simone.
O resultado é completamente distinto de seus trabalhos anteriores, mas com a cara dela. “Eu sempre falei e cantei o amor. Para este trabalho, liguei para todos os compositores que me enviaram canções, ou até mesmo os encontrei, e disse: é um trabalho feliz, para cima, que fala do amor em todas as suas formas, jeitos e maneiras”

As faixas:

  • Love (Paulo Padilha)
  • Cartas Noites (Dé Palmeira/ Adriana Calcanhotto)
  • Migalhas (Erasmo Carlos)
  • Na Minha Veia (Zé Catimba/ Martinho da Vila)
  • Bem pra Você (Dé Palmeira/ Marina Lima)
  • Geraldinos e Arquibaldos (Gonzaguinha)
  • Hóstia (Erasmo Carlos/ Marcos Valle)
  • Pagando pra ver (Abel Silva/ Nonato Luiz)
  • Vale a pena tentar (Simone/ Hermínio Bello de Carvalho)
  • Ame (Paulinho da Viola/ Elton Medeiros)
  • Definição da Moça (Adriana Calcanhotto sobre poema de Ferreira Gullar)
  • Deixa eu te amar (Agepê/ Ismael Camillo/ José Mauro Silva)

Ler é uma festa !!!

Novembro 13, 2009

Jornada de cultura da Chá de Caxinde “Lendo, Crescemos!” que se realiza nas instalações do Nacional Cine-Teatro, desde o dia 9/Novembro. A entrada é grátis, o horário é das 10 às 22h. Com várias iniciativas culturais e até provas de vinho. Passe por lá.

Destaque para o lançamento do livro Kimalanga de Fernando Teixeira Baião, infelizmente sem a presença do autor mas, de certeza, muito bem apresentado pelo Cassé.

Fica aqui a progração destes últimos 3 dias

Hoje Dia 13.Novembro.09:
*18:00h – “A força do verso… O poder da Palavra”, pelo Eng.º Conceição Cristóvão.
*19:00h – Frente a frente: Pepetela/Arnaldo Santos / Moderação e Israel Mateus/ Sessão de autógrafos.
*21:00h – Actuação da Banda The Kings

Dia 14.Novembro.09
*10:00h
*Abertura da Exposição com animação musical
*Presença de alunos das Escolas do Ensino Primário do Município da Ingombota
*Contadores de Histórias com o actor Raúl do Rosário e outros
*Passagem de modelos pelo Grupo Especial Chá de Caxinde

*15:00h Encerramento do fim do ano lectivo do Colégio Universal Jany – Helga

*18:00h Apresentação do livro “Organizações Internacionais” de Marcolino Moco, seguida de sessão de autógrafos

*19:00h Lançamento do livro “Kimalanga” de Fernando Teixeira Baião / Apresentação de Carlos Ferreira “Cassé

*20:00h Actuação do grupo musical de Moisés Kafala

*21:00h Momento de Dança e Música

*22:00h Hora dos Sorteios e encerramento da Exposição

Dia 15.Novembro.09
*10:00h
*Abertura da Exposição com animação musical
*Presença de alunos das Escolas do Ensino Primário do Município da Ingombota
*Kuduru em exibição com Mestre York do Rangel
*Contadores de histórias com o actor Raul do Rosário e outros
*Exibição de Kizomba
*Grupo de Dança e modelos

*15:00h “O Poder da Sociedade grafocentrica” pelo Dr. António Quino, com moderação do Dr. Francisco Soares

*16:00h Zilda Pontes autografa “Amor Protegido”

*17:00h Apresentação da Orquestra Sinfónica Kaposoca, da Administração Municipal da Samba

*18:30h Peça de Teatro Infantil “ Um Conto de Fadas” pelo grupo Protevida

*21:00h Actuação da Banda The Kings

*22:00h Hora dos Sorteios e encerramento da Exposição.

Quando o simples vira belo

Novembro 11, 2009

Dá show acústico de Gilberto Gil, o cantautor como tão bem dizem os Brasileiros, naquela linda sala do CCB, o Grande Auditório que tem uma acústica fantástica – Concerto de Cordas.

Depois de abrir o espetáculo sózinho, acompanhado de 8 cordas, as 6 do seu violão e as duas vocais, Gil chama as 6 cordas do violão do seu filho Bem Gil e as 5 do violoncelo do  maestro Jacques Morelenbaum e mostrou como é simples fazer boa música. Um simples recheado de boa poesia acompanhada do balanço da melodia que só Gil consegue fazer.

 “Não Tenho Medo da Morte” — só ele e o violão — é uma verdadeira aula de interpretação. O destaque neste Concerto de Cordas vai, sem dúvidas, para as duas vocais de Gilberto Gil com um desfile de guinchos e falsetes, gritos de orixás, passeios melodiosos pelo grave, e até o assobio firme e afinado de sempre.

Tão bom ver uma sala tão cheia, tão cheia de gente que sabe ver e ouvir boa música e agradecer por isso. Tão bom.

Claro que o paralelismo, hum… esta não será a palavra mais correcta dirão alguns?!  não?! eu acho que sim será a palavra exacta para quem tem imaginção e consegue ver para além do presente. Foi então inevitável, o parelelismo que fiz, com uma lágrima no canto do olho, com o herdeiro, o seu pai e o Jaquinho, o mesmo Jacques. 

“O mundo encantado da música é feito com o milagre do encontro dos criadores”

retirada da net

Cultura por cá

Novembro 6, 2009

retirada da netComeçou hoje o Estoril Film Festival, onde a sétima arte é vivida e compreendida na interacção entre a pintura, fotografia e artes plásticas (bilhetes a 3€ e passe festival a 20€).

Os filmes a concurso são 12 [ver aqui] e serão seleccionados por um júri composto por Cindy Sherman- fotógrafa e realizadora norte-americana; David Byrne – músico e realizador; Alexandre Desplat – um dos compositores mais activos de Hollywood, ; Rui Horta – o criador do centro de produção artística “O Espaço do Tempo” e um dos principais impulsionadores de uma nova geração de bailarinos e coreógrafos; e Manfred Eicher – fundador da mítica ECM Records.

Fora da competição estão em antestreia as obras :
“The Girlfriend Experience” – de Steven Soderbergh [12.Nov]
“The Fantastic Mr. Fox” – de Wes Anderson [5.Nov]
“Bright Star”-  Jane Campion [11.Nov]
“Tetro” –  Francis Ford Coppola [8.Nov]
“The White Ribbon” – de Michael Haneke [7.Nov]
“Un prophete” – de Jacques Audiard [14.Nov]
“Os Sorrisos do Destino” – Fernando Lopes [7.Nov]
“(500) Days of Summer” – Marc Webb [13.Nov]
Antichrist – Lars von Trier [13.Nov]
The September Issue – R.J. Cutler [9.Nov]

O festival arrancou hoje com a inauguração da exposição Portraits In-Eyes (uma mostra feita com pinturas, poemas e retratos das personagens que Juliette Binoche interpretou, assim como dos realizadores com quem trabalhou, actriz já com um Óscar é também artista plástica) com a presença da actriz, uma das homenageadas. O Estoril Film Festival completa esta homenagem com a projecção de alguns dos filmes que inspiraram este projecto.

O festival é rico em homenagens, outro dos homenageados é David Cronenberg com exposições sobre o seu trabalho, bem como  filmes raros, eventos, workshops. Saiba tudo aqui.

Jazz em Luanda

Novembro 4, 2009

Não percam, por favor, não percam.  Joshua Redman, saxofonista americano de 40 anos. Esteve em Cascais, no verão,  para o CollJazz Fest mas eu não consegui ver. 
Este homem vai tocar em Luanda nos dias 13 e 14 de Novembro, no Hotel Trópico, acompanhado pelo trio: Aaron Goldberg, Gregory Hutchinson e Reuben Rogers.

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Uma nota para o concerto e Richard Bona no Cine Atlântico, dia 27 de Novembro – terá direito a post próprio, mas marquem já na Agenda.

Asterix tá kota

Outubro 30, 2009

Fez hoje 50 anos, a saltar para cima dos romanos e com medo que o céu lhe cai em cima da cabeça. Aliás , foi este o título do último álbum,”O céu cai-lhe em cima da cabeça” que data de 2005 e teve uma tiragem mundial de oito milhões de exemplares.

A 29 de Outubro de 1959 aparece pela primeira vez “Asterix, o Gaulês” , personagem de banda desenhada criada pelo argumentista René Goscinny e pelo escritor e desenhador Albert Uderzo. As histórias começaram por ser publicadas na revista francesa “Pilote”. O primeiro livro só viria a ser editado em 1961.

“Estamos no ano 50 antes de Cristo. Toda a Gália foi ocupada pelos romanos… Toda? Não! Uma aldeia povoada por irredutíveis gauleses ainda resiste ao invasor.” Este é o prefácio de todas as histórias de Asterix. E este é o álbum de comemoração destes 50 anos, o 34º :

retirada da net


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