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Heroísmo

Maio 17, 2008

Porque será que gostei tanto deste texto, publicado na Revista Máxima de Junho na rubrica “Prosas Incompletas” e assinado por Clara Ferreira Alves?! Porque essa teimosia é que nos mantém vivos, mas não é tão simples como parece.

<< As pessoas que escapam da morte certa têm um olhar diferente das outras. Uma espécie de alheamento dos pequenos gestos, uma atenção distraída às miudezas da existênca, e um discurso directo ao assunto que parece insensibilidade e é a noção do tempo que passa. Uma pessoa a quem é dito que tem pouco tempo de vida sabe coisas que outras pessoas não sabem. O olhar fica mais fundo e calado, resisitindo à divagação que é a tendência dos imortais.
A mulher sentada à minha frente é muito jovem, 20 e tal anos, e uma cara lisa de uma palidez delicada, como uma boneca de porcelana chinesa. Enquando brinca com uma colher de metal, com a tal atenção distraída com que come o que está em cima da mesa, diz que os médicos lhe deram 6 meses de vida aos 23 anos. Seis meses de vida. Ou três meses de vida. Os médicos dizem muito estas verdades, pressupondo que queremos saber delas e que a verdade acima de tudo, como nos filmes, é um valor intrínseco do exercício da medicina. A minha experiência da condição humana doente, e doente terminal, pelos amigos e próximos que vi morrer, é que a verdade é o que menos interessa e que a esperança é a essência da sobrevivência. A morte intimida e saber da morte certa não suaviza nem a morte nem a vida que resta.
Diz que respondeu aos médicos que nem pensar, que ainda tinha muita coisa a fazer. Diz isso com uma voz calma e delicada como a face, e sem colocar acentos dramáticos na história, sem a pontuar ou abrir parágrafos, com a neutralidade de quem conta um episódio que se passasse com outra pessoa. Sofreu as operações, os tratamentos, as transfusões, a humilhação branda e sistemática do hospital, do internamento, da dependência e da fraqueza. Depois sobreviveu para além dos meses do prazo, sobreviveu anos. De seis em seis meses, sempre esta mania dos seis meses como prazo de prorrogação da vida, faz testes. Os anos passados dão-lhe a garantia de uma cura, ou de uma fase curada da doença. O facto de fazer testes continua a fazer da doença uma companhia, agora uma companhia que conhece bem e que não deixa aproximar-se do corpo.
Diz que sobreviveu porque se recusou a morrer, e isto não é tão simples como parece. Os médicos tratam-na como um “milagre da medicina”, um daqueles falsos casos perdidos, e tratam-na bem, gostam dela, vigiam-na com todo o cuidado, porque uma vida salva é uma consolação em casos com prognóstico tão fechado. Um cancro aos 20 anos.
E porque é que ela se recusou a morrer? Porque é que não se deixou ficar no seu canto e encomendar as últimas vontades, a tomar sedativos e antidepressivos, a entristecer e a perguntar a um deus desconhecido porquê eu? Porque é que não se lamentou e chorou e rasgou as vestes? Ela diz com a voz muito calma e a expressão inteligente. “É a cabeça. A minha cabeça.” E depois repete compassadamente “está tudo na cabeça”.
A palidez contrasta com o vestido negro. É uma palidez que não se deixa toldar por qualquer rubor e que lhe confere a beleza superior do exotismo. Os olhos são diferentes, sem a inocência da juvemtude. São olhos que viram demasiadas coisas antes do tempo. Como os olhos dos soldados que fizeram a guerra. Depois levantou-se nos saltos altos e caminhou sobre uma ladeira de pedras polidas sem tropeçar ou cair, como quem sabe o caminho. Uma ladeira das que não suportam saltos altos. Eu pensei, o heroísmo é isto, esta teimosia. Isto é ser heróico. Continuar a subir a ladeira. Não é tão simples como parece. >> 

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