Um pequeno gesto

Ontem, às onze e meia da noite, vinha eu de Lisboa, na auto-estrada cantarolando a música que tinha no CD quando de repente à entrada da portagem o carro vai abaixo – ele, carro, não tem andado bem mas tinha, por acaso, saído nessa manhã da oficina – primeiro pensamento, vai voltar a ligar (ele ligava sempre), mas desta vez resolveu pregar-me uma partida e lá estava eu à entrada do corredor da portagem, impedindo o trânsito e tentando que o carro pegasse, com cara de parva – já repararam na cara de todos os condutores de carros que avariam no meio da estrada impedindo o normal funcionameno do trânsito? – e pedindo a todos os meus santos e mais alguns que me tirassem daquela situação … segundo pensamento e imediatamente a seguir ao primeiro, não tenho bateria no telemóvel, NÃO TENHO BATERIA NO TELEMÓVEL !!!

E talvez tenha sido nossa senhora da Muxima, ou Iemanjá quem sabe 😉 que enviou o casal que de repente, na fila do lado da portagem me pergunta se precisava de ajuda para empurrar o carro. Tinham passado mais de 10 minutos, estava uma mulher sozinha dentro de um carro avariado, a impedir o trânsito, às 11:30 da noite e ninguém, absolutamente ninguém, até aquele momento me tinha perguntado se eu precisava de ajuda…

Que sociedade é esta? Em que seres egoístas nos estamos a transformar todos, que só conseguímos olhar para o nosso próprio umbigo, que só nos preocupamos com as coisas materias, que matamos os nossos semelhantes …

Era um casal jovem, brasileiros, ele disse-me “nós nunca sabemos o dia de amanhã e o que nos pode acontecer, eu estava vendo toda a gente passar e ninguém perguntando se precisava de ajuda!” , empurramos o carro para a berma e não bastanto, mais uma vez, num gesto, que marca, ela me emprestou o telemóvel para eu poder ligar para o SOS para pedir o reboque…  E é nestes momentos, é com estes pequenos gestos – tão grandes – que eu volto a acreditar no ser humano, que volto a acreditar que a nossa sociedade, que o mundo tem salvação.

Foi um sufoco tudo o que passei, o resto da história segue o seu rumo normal e tem um final feliz, por causa dele e dela, pessoas comuns, simples, que estão em Portugal, de certeza, a lutar diariamente para conseguir uma vida um bocado melhor e que não hesitaram em ajudar um ser humano.

Com tristeza, mais tarde, penso que não sei os nomes deles, lembro-me perfeitamente dos seus rostos, mas não sei os nomes, devia ter perguntado, devia saber, e ficarei sempre com a sensação que todas as minhas palavras não foram suficientes para agradecer o gesto, tão simples …    

Pensei muito esta noite, em como estou a educar o meu filho, que caminho estou a seguir, e tenho a certeza que mudei, mudei para melhor … pode ser que um dia eles passem por este blog, pode ser que um dia , ele e ela, leiam este post e fiquem a saber o quanto lhes estou eternamente grata, e que fiquem a saber que um pequeno gesto melhorou (mesmo que só um bocadinho) o meu ser.

p.s. chamo “pequeno” ao gesto porque acho que devia ser um gesto normal em todos nós e que se assim fosse, talvez nem merecesse referência neste blog  

10 Respostas to “Um pequeno gesto”

  1. maria Says:

    Kianda, ao ler o teu post lembrei-me de um artigo num jornal que saiu aqui à um mês atrás, feito por uma jornalista. 😉 Fiz um search no google e encontrei o artigo. 😉

    http://dn.sapo.pt/2008/05/04/sociedade/acha_isto_e_sitio_para_parar_o_carro.html

  2. maria Says:

    E agora lembrei-me desta e deixa-me contar-te: Eu em Luanda, estava dentro do carro com a M. a ouvir música e logo a seguir deu uma noticia q um cadáver estava no meio da rua X ( não me lembro o nome ) e ninguém o removia. Passavam carros e carros e não paravam… Eu “revoltada” por ouvir tal notícia preguntei à M.: Mas ninguém pára para ao menos tirar o corpo no meio da rua ou para o levar à morgue? Resposta da M: Não, aqui se mexes no corpo ainda pensam que foste tu que o atropelas-te e ainda vais parar à esquadra e ficas preso 😉

  3. Bibbas Says:

    São estes episodios que nos fazem ter esperanca que afinal há perspectivas de melhorias para a nossa especie, pois nossa essencia é boa…hum hum …até uma familiar nosso morrer porque o predio da DNIC caiu, qd ele que até só tinha ido testemunhar um assalto, ficou preso; ou apanharmos uma surra no Roque Santeiro quando fomos ajudar o carro do lado que se tinha avariado…O sitio onde vivems condiciona a nossa maneira de ser…essa é a triste realidade, pois no fundo, fundinho somos bons…Falando em gente boa Kianda, o vizinho do 4 H, esta aí e já disse que nao tem visto o carro da vizinha…agora ja sei que foi “atraves” da avaria…

  4. kianda Says:

    maria obrigado pelo artigo, foi exactamente isso, é exactamente isso, cada vez menos olhamos para o lado…infelizmente.
    Quanto ao episódio de luanda, concordo com a Bibbas quando diz que o lugar onde vivemos condiciona a nossa actuação…e mexer num cadáver não é bem o mesmo do que ajudar alguém em apuros, é mais uma questão de saúde pública, eu também não o tiraria mas chamava a polícia … tem que ser a polícia …
    Se eu estivesse parada à 11:30 da noite num sítio escuro, isolado eu percebia que ninguém parasse, tanta notícia de carjacking que aceito que as pessoas tenham medo, o que me fez confusão foi que eu estava num sítio cheio de movimento e luz … enfim…

  5. migas Says:

    Sim, isso não tinha desculpa. O sítio onde isso te aconteceu não parecia de todo perigoso. E é realmente triste ninguém ter tido a simpatia de te perguntar se precisavas de ajuda. Era o mínimo…
    Bem, eu e o M. também já tivemos um episódio semelhante. Auto-estrada, de noite e a caminho de Aveiro, vemos um homem a pedir ajuda. Paramos porque percebemos que o carro estava avariado. O homem, pedia que o levassemos até à saída da auto-estrada para pedir ajuda… com o acrescento de mais 2 homens… Medo, muito medo. No mesmo momento arrependemo-nos de ter parado porque as caras eram um tanto ao quanto sinistras. Oh pá, a coisa correu bem. Na primeira saída deixamos os gajos para eles se desenrascarem mas, ficamos com a certeza que tivemos muita sorte pois, por momentos sentimo-nos no meio de uma enrascada. Não teria sido o teu caso, certamente. Acho que a Kianda não tem ar sinistro. :o)

  6. Fernando Baião Says:

    São estes pequenos gestos de solidariedade social, que nos levam a pensar, mesmo no mundo cão em que vivemos, que devemos prestar apoio ao próximo nas estradas. Mas, hoje, a imprensa, a rádio e sobretudo a televisão não fazem outra coisa, senão, meter medo às pessoas, só contam os casos maus. Eu antigamente, parava, mas agora toda a atenção é pouca. Mesmo mulher sozinha, já também assalta. Em Luanda, contou-me um cooperante da Soares da Costa, parou junto a um carro com duas moças, pediram ajuda para ir buscar gasolina e a meio, a que ficou no banco de trás, apontou-lhe uma naifa ao pescoço e começaram a limpar-lhe a carteira, telemóvel e por fim ainda lhe obrigaram a tirar as calças, camisa e sapatos, dizendo que era oferta para os seus fôfos. Felizmente, deixaram-lhe o carro, as boxers e as meias.

  7. Bibbas Says:

    Que é isso Fermando Baiao, o nosso genero feminino, ainda por cima Luandense nao faz essas coisas :):):):):):):):): Isso são bocas da homens que ficaram sem as calças por outros motivos, e têm que dar largas imaginação…assaltos acontecem em Luanda, mas sao os homens que lideram. Nos as mulheres somos “survivals” desse genero mau chamado homen hehehehehe…coitadinhas de nós. hehehehehehehe chegar a casa de meias e de boxers porque foi assalto…:):):):):):): isso cheira a desculpa de quem não sabe ser “profissional”….Nota: ja não existem “cooperantes” agora só existem “expatriados” :):):):):):)

  8. Fernando Baião Says:

    Bibas, também me cheirou mal a tal desculpa do”cooperas”, mas que hei-de fazer, contei como me contou. Ainda dei o toque, que parou, porque eram “catorzinhas”. Ele disse que realmente eram “geitosas” as garinas, garinas é termo meu, mas “jurando pelo sangue de cristo” disse que foi mesmo para ajudar (ahahahah). Fazendo boa muxima, direi que realmente as mulheres não assaltam, só roubam. Assaltantes e mafiosos, só esse género humano que tem “bumbi”(eheheheheheheheh).

  9. migas Says:

    Ahahah… Fernando, realmente a história está bem criativa. Sabe que a ideia que eu tenho é que, quando dizemos muito uma coisa que é mentira, acabamos por acreditar que estamos a dizer a verdade… ahahah (teorias de uma amiga minha)… Por isso, quer-me parecer que esse expatriado estava a tentar mentalizar-se que esse episódio realmente aconteceu! :o)

    Tem razão quanto à informação dos media como meio para assustar quem não tem problemas em ajudar (rima parola… ahahah). Lembro-me que um dia, um chefe meu disse que à uns anos atrás era muito comum ele pedir boleia e também, dar boleia. Contou que um dia (recentemente) viu uma adolescescente de muletas e que pensou dar-lhe boleia (parecia que ela se encaminhava para uma paragem de autocarro que ainda estava longe) só que depois lembrou-se nos espisódios de pedofilia tão em moda na altura e, acabou por não parar… É a triste evolução das coisas.

  10. Eliseu Suca ( Miki ) Says:

    O silêncio é a vertude, de muitas coisa dolorosas, assim como felizez que podem ou poderão ser desabafadas num determinado momento.

    É só tudo chegar na hora certa. Força.

Deixe uma Resposta

Preencha os seus detalhes abaixo ou clique num ícone para iniciar sessão:

Logótipo da WordPress.com

Está a comentar usando a sua conta WordPress.com Terminar Sessão / Alterar )

Imagem do Twitter

Está a comentar usando a sua conta Twitter Terminar Sessão / Alterar )

Facebook photo

Está a comentar usando a sua conta Facebook Terminar Sessão / Alterar )

Google+ photo

Está a comentar usando a sua conta Google+ Terminar Sessão / Alterar )

Connecting to %s


%d bloggers like this: