País de imigração – Pepetela(*)

Não tenho números a apoiar minhas intuições, mas o prometido Censo da População talvez me dê razão. Acho que Angola se tornou já num país de imigração e como tal vai permanecer durante muito tempo.

Terá havido fases distintas no decorrer da História. Primeiro esta era terra onde vinham se fixar as populações falando banto, empurradas do norte, dos Camarões ou da Região dos Grandes Lagos. País de imigração, onde se chegava. Depois mudou para país de emigração, quando passou a «exportar» escravos, «importando» apenas alguns europeus, por sinal de péssima qualidade, isto é, agentes do tráfico. Mais tarde acabou o tráfico e a balança se recompôs: vinham europeus pobres, na maioria camponeses analfabetos, saindo alguns tantos angolanos para o Congo, procurando lá melhores condições de vida.

Depois de 1974, passou a exportar outros «produtos» (colonos retornados, angolanos assustados com a Independência e a guerra, estudantes, trabalhadores mais ou menos clandestinos para as obras dos países do norte) em maior quantidade do que importava assessores e uns tantos negociantes mais espertos que outros.

Agora mudou de novo, Angola só «importa»: regressam cada vez mais os nacionais que fugiram da guerra ou das dificuldades e até os seus filhos; os que estudaram e se iam deixando ficar pelas estranjas agora descobrem ser mais fácil e melhor remunerado o emprego aqui; os das obras, que finalmente aqui redescobrem a dignidade tantas vezes recusada; e vêm cada vez mais estrangeiros, uns de qualidade, outros desgraçados vizinhos que tentam a kamanga, mantendo assim a tradição milenar banto de entrar pela Lunda e depois se espalharem; vem também muito Chico Esperto a tentar aldrabar o patrício, já não com missangas, mas com projectos de obras faraónicas.

Este tipo de Chico Esperto vem de muito sítio, desde a América à Ásia, embora o discurso seja rigorosamente o mesmo, acompanhando o ambicionado projecto.

Somos decididamente um país de imigração, o que não é forçosamente mau (Estados Unidos, Brasil, Alemanha e França depois da II Guerra Mundial, esses são bons exemplos de países que se fizeram ou desenvolveram recorrendo à mão-de-obra alheia), mas temos de controlar a qualidade do produto que entra.

Algum vem sem rótulo e outro muito fora do prazo de validade (quer nas habilitações quer nos propósitos). Para isso teria de haver uma política clara, fruto de um debate esclarecedor a nível nacional.

Esta afirmação suscita reacções alérgicas, sei bem. Alguns de nós temos dificuldade em aceitar o facto inevitável que pessoas diferentes vieram para ficar. Existe xenofobia na nossa maneira aparentemente lúdica e pacífica de receber o estrangeiro.

Neste momento, vemos a presença estrangeira como uma necessidade temporária e por isso admissível. Ora, temos de olhar quem preferiu este país para seu lar como um parceiro no desenvolvimento e que se tornará, mais tarde ou mais cedo, num dos «nossos». Choca? Então temos de debater e aprender.

E devíamos integrar melhor os vizinhos aqui procurando a sobrevivência. Alguns vieram fugindo de guerras, como nós fizemos ainda há pouco tempo. E fomos acolhidos nos países deles. Outros vêm porque Angola oferece oportunidades. E o facto é que temos terreno sobrando e possibilidades para distribuir por todos.

Qual então a razão para os desprezarmos e expulsarmos? Se os soubermos integrar, não há perda de identidade, há antes riqueza da diversidade. São esses mambos que temos de discutir. Devagar, com calma, mas a sério. E com números.

(*) Pepetela, escritor angolano, assina crónica na edição de novembro da revista África 21

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