Voo DT472 : Lda/Catumbela/Ondjiva

Aqui está a história da Xó contada pela própria conforme prometido. Acrescento que fomos as duas até Luanda pela mesma triste razão, para um funeral. Eu vivo e trabalho em Lisboa, a Xó vive e trabalha na Catumbela (Benguela). As duas trabalhamos por conta de outrém e temos compromissos e por isso marcamos as nossas viagens de regresso para domingo. Eu na TAP às 7:45 da manhã de regresso a Lisboa, a Xó na Taag às 11h de regresso à Catumbela. Na segunda feira de manhã eu estava a trabalhar, a Xó estava no aeroporto ainda em stress, a adiar reuniões e a tentar embarcar. Ainda há 15 dias atrás estive em Luanda, fui na TAP e paguei mais, na altura tive esta conversa com várias pessoas a propósito de dizer que quem tem compromissos não pode confiar na Taag e infelizmente tem(tinha) que pagar mais.
É verdade que sempre viajamos na Taag e sempre nos rimos das “quedas”, mas eramos jovens, sem compromissos e a passagem para Portugal custava uma grade de gasosa.

Viajar na Companhia de Bandeira, sempre foi uma aventura, não foi por mero acaso que os angolanos inventaram a expressão “cair”, esta expressão, que eu me lembre, surge exactamente pelos constantes cancelamentos e incertezas de voos da taag, tanto domésticos como internacionais.
Estas “quedas” são famosas desde a década de 70, em que a taag era a companhia aérea exclusiva a operar voos domésticos, naquela altura “caía-se” porque o voo era cancelado, “caía-se” porque apenas alguém “tomava” um lugar confirmado ou “caía-se” apenas porque se “caía”.
Mas eu descobri, ontem, dia 17/05/2009 (30 anos depois da invenção desta expressão), que há quedas e quedas e que de facto alguma coisa tem que mudar. Ontem eu tive uma “queda” que me deixou, literalmente, à beira de um ataque de nervos, uma “queda” que eu considero um abuso, uma tremenda falta de respeito, um abuso extremo de poder, uma “queda” que nos dias de hoje não se admite, uma “queda” que me deixa a pensar que a taag não é uma empresa preparada para gerir um conflito, pelo menos externo, mas sim uma empresa que gera conflitos, uma “queda” perante a qual eu me questiono qual o limite da taag? que nos desespera, nos maltrata, nos leva a um estado terrível de nervos ao ponto de entrarmos em histerismo e tudo isto depois de pagarmos um preço, sim, nós pagamos para ter todo este serviço, com requintes de malvadez. A história é longa, mas também foram muitas horas.
Voo DT472 com destino à Ondjiva e escala na Catumbela, hora de partida 11:00am, inicio de Check in 08H00 a.m. Até aqui, tudo corria, com “normalidade”, tendo em conta a fama da companhia, confusão tremenda para se fazer o Check in, única companhia, aliás, onde ainda se verifica esta confusão, sistema informático que “cai” a meio da operação de Check in, extrema arrogância e antipatia por parte dos operadores da companhia, enfim situações a que os passageiros, infelizmente, já se habituaram e com as quais até já aprendeu, estranhamente, a lidar com naturalidade.
Às 10:30 inicia-se o embarque dos passageiros, ouvem-se comentários simpáticos “finalmente parece que a taag está a melhorar, vamos partir a horas”, ligações para os contactos de destino “estamos a sair, dentro de “x” tempo estaremos a aterrar”, enfim a agitação normal de um embarque, sentadinhos no avião, eis que o comissário de bordo anuncia que teremos que aguardar, pelo menos, 20 minutos porque a pista estava ocupada, o que são 20 minutos quando o avião está a sair a tabela?
Decorridos 60 minutos, começa a surgir àquela inquietação de quem está ansioso para chegar ao destino e sem perceber bem porquê ainda se encontra dentro do avião e em terra.
É-nos transmitido por alguém (passageiro) que decidiu ir questionar alguém supostamente da companhia, que há carga em excesso e que como o avião está com o depósito de combustível cheio, seria um risco levantar nestas condições por causa da aterragem, principalmente porque o percurso entre Luanda e Catumbela é demasiado curto para queimar combustível e fazer uma aterragem segura (explicação aceitável, principalmente para mim leiga no assunto), entretanto surgem rumores de que este excesso de bagagem teria sido provocado pelos instrumentos de uma banda de músicos brasileira que iria animar as festas do dia da cidade de Benguela, mas que como havia bilhetes vendidos para o concerto, a solução seria retirar toda a bagagem dos passageiros de Ondjiva e fazer a viagem, claro que com esta notícia, gera-se um reboliço, justo, por parte dos proprietários das bagagens em vias de ficarem em terra.
Decorridas 2 horas, nenhum operacional da taag dava qualquer informação concreta, apenas recebíamos indicações arrogantes de senhores portadores de coletes da Taag que eles (taag) não tinham culpa e que estavam a tentar encontrar uma solução, entretanto, soube-se por alguém, sempre por alguém, que o Comandante do avião teria pedido autorização à Direcção da companhia para efectuar a rota de forma inversa, ou seja ir 1º à Ondjiva (percurso mais longo e assim queimar combustível) e posteriormente à Catumbela, nesta altura já o avião estava transformado numa sala de conferências entre passageiros, onde se opinava, davam-se soluções, faziam-se acusações, enfim, onde tudo se dizia e nada acontecia. Findas 3 horas em terra, sempre dentro do avião, já num estado de saturação imensa, apesar das “n” personagens cómicas que foram dando o ar da sua graça, alguém, sempre alguém se lembra que estão crianças no avião e que precisam de se alimentar, ao que foi dito que as Sanduíche existentes seriam para os passageiros da executive class (que entretanto já se encontravam misturados com os da económica), este alguém pura e simplesmente exigiu as ditas sanduíches e distribuiu-as ele próprio pelas crianças, pois o pessoal de cabine (aeromoças) preferiu confraternizar nas traseiras do avião com a dita banda brasileira e de cada vez que eram solicitadas, dirigiam-se muito mal dispostas por terem sido incomodas pelos passageiros, afinal de contas éramos nós passageiros que estávamos a mais naquele filme.
4 horas, sim quatro horas depois e sem qualquer solução à vista ou justificação e em terra sempre em terra e dentro do avião, no meio de uma confusão de vozes que já nem conseguia perceber de onde surgiam, dei-me conta de que a minha paciência tinha chegado a um limite e que se não tomasse uma atitude eu explodia dentro do avião e as consequências dessa explosão poderiam ser desastrosas, então tomada por uma raiva/revolta incontrolável, raiva que nunca tinha sentido em toda a minha vida, dirijo-me para a porta do avião que esteve sempre aberta, informo ao comissário de bordo, sim informo, que vou descer do avião e que já não tenho condições psicológicas de continuar presa naquele avião, como se tivesse cometido algum crime ou estivesse de quarentena, sem uma justificação da empresa onde eu comprei uma passagem para o inferno, sim eu paguei, ao descer do avião ainda oiço a voz de uma passageira, que alegando falta de solidariedade da minha parte por abandonar o avião, me ameaça dizendo que “quem sair do avião vai levar porrada”, volto atrás e respondo, tentando ser racional, que entendia a frustração dela e a vontade dela de bater em alguém, mas que infelizmente para ela essa pessoa não seria eu de certeza, tentei faze-lo dentro dos padrões normais de educação, desço e consigo falar com o Comandante que me diz que a responsabilidade dele é garantir a segurança dos passageiros, quando olho para atrás vejo todos os passageiros a descer também, gera-se o caos na placa.
Naquele momento, eu só queria uma solução, fosse ela qual fosse, não adiantava fazer conjecturas em cima do vazio, mas a solução, para mim, achava eu, estava no avião ao lado que estava a embarcar passageiros para a Catumbela, para o qual foram de imediato transferidas a bagagem da banda de músicos por bagageiros da taag e apoiados por uma carrinha da mesma companhia, mas foi-me dito pelas mesmas pessoas que autorizaram a transferência da bagagem acima citada, que jamais a bagageira do avião poderia ser aberta para que a minha bagagem fosse retirada, perante esta resposta, a explosão que eu contive até este momento aconteceu, tive literalmente uma ataque histérico, ali defronte de supervisor (de colete verde), imóvel e completamente indiferente aos meus apelos e acusações, apenas me garantiu que o que eu afirmava era ilusão, ou seja, 2º ele não houve qualquer transferência de bagagem, muito menos efectuada pela taag, eu vi, juro que vi, todos os passageiros viram, aliás é fácil comprovar o voo DT472 não foi para a Catumbela mas os músicos e a respectiva bagagem chegaram à Catumbela e fizeram o seu espectáculo e eu e os restantes passageiros ficamos em terra, sem qualquer explicação nem consideração.
Lembro-me que foram chamados agentes de autoridade para a placa, ao que questionei a razão destes na placa ao que me foi dito que seria para proteger o avião (??).
Depois destas 4 horas, já tinha decorrido mais 1 hora na imensa confusão na placa e nada se resolvia, foi então que pedi encarecidamente aos Srs. De colete verde que fizessem algo, nem que fosse mandarem-nos embora com os nossos pertences e nos dessem garantias de ressarcimento da situação, ao que me responderam da seguinte maneira “minha senhora, nós não trabalhamos com dinheiro”, pois a minha ideia era viajar noutra companhia e ser reembolsada, eu tenho responsabilidades e não podia novamente ver a minha vida dependente daquele serviço caótico e sem qualquer respeito pelo meu dinheiro que tanto me custa a ganhar. Houve quem pedisse alojamento pago e lembro-me de ouvir o seguinte “se nem para os voos internacionais nós damos alojamento quanto mais para os domésticos”, não me perguntem que somos “nós”, porque eu só ouvia vozes. Depois de finalmente nos retirarem da placa, levam-nos para a sala de desembarque e informam-nos a uns para estarem às 4:00am a outros às 6:00am porque teríamos impreterivelmente um avião a partir às 7:00am, naquela altura eu só queria a minha bagagem e sair daquele inferno.
Saio do aeroporto com esta garantia e volto no dia a seguir, convencida de que tudo iria ser tratado com mais respeito e humildade e que haveria uma intenção clara por parte da companhia para limpa aquela mancha, mas mais uma vez me enganei, pois fomos mal recebidos mal tratados, a mesma arrogância, a mesma atitude despreocupada, pois nem uma água recebemos, nem um pedido de desculpa e só conseguimos sair às 10:00H, porque segundo informações o piloto que iria fazer o voo estaria preso no trânsito, isto foi dito como se nós passageiros pagantes mal tratados, teríamos que compreender.
Enfim, esta situação surge numa altura em que se fala de reestruturação da companhia, em que se aumentam as tarifas para o dobro do preço, mas que se nota claramente que nada foi feito que justifique, pelo menos, a subida dos preços no que respeita à qualidade do serviço.
A taag não faz contas ao tempo e dinheiro que perde ao manter um aparelho na placa mais de 4 horas, a taag não contabiliza os transtornos que causa aos passageiros pagantes envolvidos nestas situações, a taag não tem pessoal qualificado para atender pessoas, a taag não gere conflitos, a taag gera conflitos, a taag não é uma companhia digna de representar uma bandeira.
No meio desta situação senti que fazia parte de uma realidade tão estranha que parecia de outra dimensão. Fiz parte de espectáculo itinerante de aberrações, no meio daquelas vozes que vinham não sei de onde e que nada diziam.
Eu tenho imensas questões que gostaria de colocar, mas fico por aqui, resolvi escrever porque acredito que as coisas estão a mudar e acredito que têm de mudar e tenho a certeza que desta maneira contribuo para que alguma coisa seja feita, não podemos ser lesados e maltratados de forma gratuita, muito menos podemos pagar para sofrer.
P.S. Escrevi taag em letras minúsculas porque considero que esta companhia não merece nem as letras maiúsculas.

10 Respostas to “Voo DT472 : Lda/Catumbela/Ondjiva”

  1. Cafefas Says:

    Tem calma XO. O Kota Tomas, Ministro dos Transportes, veio a tempo e horas para resolver os nossos problemas. Ainda nao conseguiu tirar a companhia da lista negra europeia mas ja esteve mais longe disso e acredito mesmo que lá para julho estara de regresso a lisboa. O aumento dos bilhetes, apesar do contas, é necessario e importante para torna-la competitiva junto das concorrentes (esperemos que o aumento melhore os serviços) apesar de eu achar que o aumento na economica foi exagerado uma vez que disso mesmo se trata “economica”. compramos mais 9 aviões de ultima geração e com vagar vamos tornar a taag ou melhor a TAAG (uma vez que sao as iniciais de Transportes Aereos de Angola) uma companhia melhor. Só precisamos de um “bucadinho” mais e paciencia. Tantos anos a aguentar mais um menos um não faz diferença certo ?

  2. kianda Says:

    Errado Cafefas. E primeiro devemos melhorar os serviços e só depois aumentar os preços.
    E pergunta pertinente tens pilotos para mais estes 9 aviões de última geração?! Relembro que China está a ser feita com os mesmos 2 pilotos que estão rebentados e já não aguentam … (16 horas de voo)

  3. celio vandike Says:

    nem tanto ao mar….nem tanto a terra amigos!!!a taag está a sair da black list….dentro em breve teremos a melhor companhia de africa…..c laro!!!para os Angolanos.

  4. XO Says:

    Talvez tenhamos a companhia com a maior frota de aviões e com a pior qualidade nos serviços.

  5. Cafefas Says:

    Sinto algum pessimismo da Kianda e da XO e é importante reverter isso acreditando. Apenas acreditando. É preciso melhorar os serviços para aumentar os preços ! Ok, aceito mas onde se vai buscar o dinheiro para melhorar os serviços ? Bingo !!!! Aumentando os preços. Quem paga é sempre o “mexilhão” e nada há a fazer acerca disso. Os pilotos vão aparecer com certeza, primeiro subcontratados (talvez seja esta a solucao) como aconteceu no inicio e depois nacionais e olhem que os nossos pilotos, “através” das dificuldades, são muito mas muito bons, no outro tempo fizeram milagres. Alias como os nossos mecanicos, enfermeiros, pedreiros, etc.. que vivem de inventar soluções mirabolantes. Lembram-se do “Pio” ? (Mecanico sueco) o Pio já dizia que os nossos mecanicos na sueca seriam autenticos engenheiros pois nenhuma formação faziam autenticos milagres inventando soluções. É preciso simplesmente acreditarmos e evitarmos ao maximo a critica pela critica. Concordo com o Vandike, o objectivo é fazer a melhor companhia africana. Os ingredientes já os temos vamos agora tentar fazendo o trabalho de casa.

  6. maria Says:

    XO, dou-te toda a razão.😉

    Pela TAP: LX/LDA 1165 euros😀

  7. Bibbas Says:

    Passados quase 30 anos de quedas, a nossa TAAG tem a obrigação de estar um bocadinho melhor…eu ás vezes pergunto-me porquê que queremos dar passos mais largos que as pernas!! ?? Vamos investir na formação do nosso pessoal e ter números de voos em função da capacidade e recursos existentes. Não precisamos de ser a companhia Africana que voa para mais destinos quando registamos atrasos em quase todos os voos…é como estudar medicina e levar o dobro do tempo para terminar… desta vez foi a Xó a beira e um ataque de nervos em pleno aeroporto…mas quantas pessoas sem nome são mal tratadas e humilhadas pelo pessoal da companhia? Pessoal esse, que tb é mal pago, que tem pouca formação etc etc… É tempo de mudança…e espero que ainda possa ver alguns resultados dessa reviravolta que a TAAG “ameaça” fazer…Coragem Xó…

  8. Cafefas Says:

    Atenção Bibbas, mudança é nao mais permitirmos ser mal tratados. Somos também um bocado “passivos” quando se trata de enfrentar quem nos trata mal. Muita paciencia companheiros, é preciso essencialmente acreditar e fazer o trabalho de casa.

  9. XO Says:

    “TAAG, um passado que nos orgulha, um futuro brilhante”, este Slogan faz-me chorar de tanto rir

  10. Cafefas Says:

    Tem calma XO.

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