Longa vida ao Rei …

[Só alterei o título da crónica, o do Pepetela é “A voz total”]

Sabia, estava a sonhar. Não podia interferir no sonho, mas nada daquilo era real. Se tratava de um país rico em petróleo, um emirato qualquer do Oriente e das Mil e Uma noites, pois havia um rei usando capas de cetim e se atirando sobre enormes almofadas de penas de cisne, príncipes endinheirados rolando em limusinas e comprando inutilidades caríssimas, haréns de belas mulheres, infelizmente invisíveis.

O rei tomava todas as decisões, não saberemos se de sua própria vontade. De vez em quando reunia uma assembleia, conselhos de ministros, conselhos de Estado, coisas assim. Ficavam todos os participantes na expectativa, sem tomar a palavra nem fazer um gesto, a respiração em suspenso, até algum adivinhar pelo semblante do soberano o seu desejo. E o vivaço expressava opinião.

Quando acertava, o rei sorria para ele, um sorriso muito fechado. Era suficiente para o sortudo provocar a inveja dos outros. E todos já sabiam o que dizer, repetiam quase em coro o discurso do primeiro, ajudando a sesta real. Se, pelo contrário, o primeiro atrevido dissesse algo fora da sintonia, o ar do soberano ficava ainda mais fechado e o atrevido ruminando medos atrozes. Finalmente o rei dava por encerrada a reunião, ditando as suas conclusões para a acta. Era a voz total.

Acontecia nesse tipo de reunião, portanto, alguém arriscar «sim» e o rei a seguir dizer «não». Imediatamente muitas mãos se erguiam, pedindo a palavra. Todos para apoiarem aliviada e convictamente o não do soberano. E se alguns tinham dito sim anteriormente, corrigiam o tiro com discursos argumentando a favor do não. Havia pois consensos e mesmo unanimidade: a tal voz total.

Os príncipes assistiam a essas reuniões sem abrirem a boca a não ser para bocejos de tédio. Talvez o pai depois lhes explicasse os diferentes passos dos debates inexistentes e se manifestasse contra alguns dos membros da assembleia. Mas isso era segredo de Estado, ninguém conhecia as conversas privadas do potentado. Nem a imprensa, sempre paternalmente repreendida por querer descobrir mais que o devido.

O rei morreu. Todos ficaram à espera, sem ousar uma iniciativa. Os príncipes, demasiado novos mas já prudentes, não se manifestavam. Provavelmente haveria conversas nas intimidades dos haréns. Ao fim de uma semana, um dos conselheiros, mais impaciente ou mais afoito, disse sim. Imediatamente se ouviram vozes diferentes. Uns disseram claramente não, outros talvez, um disse porventura, outro se calhar, outro obviamente, outro imagino… até que dez grupos rivais se criaram, cada um apoiando um príncipe. Os príncipes, despreparados, patrocinaram campos opostos.

Como as discussões aqueciam, armas foram afiadas. E ajuda foi pedida ao estrangeiro. Um se ligou à potência do Norte, outro à do Leste, outro à do Sul. A Oeste só havia o mar e as potências estavam longe, por esse lado não houve intervenção nem invasões. Exércitos foram formados e entraram em combate. Todos contra todos, numa balbúrdia total. Houve medianeiros estrangeiros, as ONG da praxe vivendo dos conflitos, reuniões onusianas.

Ninguém parava a guerra, pois os beligerantes não aceitavam opinião diferente da sua, ou dos seus interesses. E os príncipes, em nome dos quais se combatia, morriam de tédio nos seus haréns, impedidos de passar férias nos lugares da moda.

Acordei antes de assistir ao cataclismo final. Porque se sabia haver negócios de armas e a procura da bomba nuclear por parte de vários grupos, os mais intransigentes.

Concluí para mim mesmo, com medo de falar alto naquela penumbra do despertar: a voz total se tornou numa cacofonia totalitária de vozes. É sempre assim?

Crônica do escritor angolano Pepetela, publicada na edição de maio da revista África 21

Uma resposta to “Longa vida ao Rei …”

  1. Sostrova Says:

    O Pepetela é que é o Rei. Soberbo como sempre.

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