O primeiro dia do resto da vida dela

Talvez seja hoje, quem sabe, o primeiro dia do resto da vida dela. Ninguém sabe, o que se sabe é que ela deu o passo. Ela deu esse passo.

Há já largos meses que alguém, na sombra lhe dizia que ela devia fazer terapia. De quando em vez, discretamente, umas vezes mais directa que outras, ela aparecia e susurrava. Mandava sms, de quando em vez um email  com o site. Um dia ela decidiu e ligou. Marcou. Só tem vaga para daqui a um mês, hum, deve ser mesmo boa essa doutora – pensou ela.

Há um tempo atrás, quando vi o medo que ela tinha de se sentar no divã do analista, perguntei porquê?! A resposta era sempre a mesma, eu sei o que me define. Ninguém me vai dizer nada de novo, dizia ela. Mas vai, pensei eu.

E ela foi. Hoje ela enfrentou os fantasmas e foi. Hoje ela enfrentou os fantasmas. Tentou não ter expectativas, tentou não esperar nada, isso nunca é fácil, mas ela esteve lá perto. Falou, falou de coisas que já antes havia falado, mas para o espelho. Vai ser um caminho longo, disse a analista.

Perguntei a ela como tinha sido? Ela ainda não sabe definir, está baralhada, lá dentro esteve muito bem, acha que pôr os problemas para fora já ajuda, tanto como a confissão para os católicos, cá fora questionou. Mas assumiu o compromisso, para a semana ela volta, porque uma coisa ela sabe, o mundo pesa.

O diagnóstico tá feito, era o que ela esperava, a causa identificada, ela sempre soube, a novidade? Como trabalhar isso para ela se tornar uma mulher mais equilibrada, como lapidar essa rocha de maneira que não perca a força, que ela consiga dar sem esgotar tudo o que tem lá dentro, mas principalmente que ela aprenda a receber.

Mas o que mais me intriga nesta história, o que me faz pensar mais ainda, acreditar mais ainda que nada acontece por acaso, que existe sempre uma razão para alguém se cruzar no nosso caminho – mesmo que não consigamos ler à primeira, ou por vezes nunca – é que, a pessoa que a “convenceu” a sentar no tal divã, neste divã, desta analista, é uma pessoa que mal a conhece – não era este  “mal a conhece” que eu queria, já vão ver porquê, mas não encontro outra expressão e fica esta – é uma pessoa que a vai conhecendo pelas leituras, por sms, por algumas palavras e por uma noite. Mas esta pessoa, meus amigos, incrivelmente, é a pessoa que melhor a conseguiu ler até agora. Não falha uma. Eu não consigo explicar, ela também não. E tu?

9 Respostas to “O primeiro dia do resto da vida dela”

  1. marta Says:

    …acho (cada vez mais!) que há pessoas que são usadas especificamente para trazer/fazer um bem específico para uma pessoa específica…creio, cada vez mais, que cada um de nós é um instrumento a ser usado em altura/s concreta/s…não acredito no acaso, não acredito em coincidências, não acho que andemos aqui “por andar” (nascer, crescer, morrer)…andamos cá uns para os outros…e não é só “achismo”, é mesmo testemunho vivido!
    E nesse Imenso Mistério que move a vida, há muito por explicar, há mais por entender…mas ainda assim, é bonito, é lindo viver e saber/sentir que estamos a fazer a nossa parte, a que nos foi destinada! Bem haja a quem dá ouvidos a “essas vozes” abençoadas =)

  2. cotamaria Says:

    Que texto mais bonito! Tão bonito quanto ela, a coragem dela e do(s) amigo(s) e amiga(s) dela que apreendi hoje aqui. Creio que foi tudo isso que trouxe a vontade de deixar este comentário sem mais palavras. Só.

  3. "a facilitadora" Says:

    it’s a kind of magic!😉

  4. marinalua Says:

    Se cada pessoa tem uma função no encontrão que dá connosco, benvinda seja esta pessoa que levou ela a sentar se por fim nesse divã…porque, penso eu??? Porque sei que isso vai a ajudar a perceber se melhor, a questionar se menos e quiça a relaxar e aproveitar um pouquinho desta imensão que é a vida…porque nos as pessoas achamos sempre que sabemos muito mais do que aquilo que na realidade sabemos…e se tirarmos a tal da expectativa, fica a vida em si, sem codigos e nem reservas, com dores e alegrias, mas exactamente como devia ser!!!

  5. kianda Says:

    Olha a facilitadora🙂
    cotamaria, obrigado pelas tuas belas palavras. E estas chegaram, mais palavras só estragava🙂 . Beijú gordo!
    marinalua e marta, sempre juntas!

  6. Bibbas Says:

    O divã arranja respostas e justificações para quase tudo!. Encontra razões que em princípio não deviam ser as soluções, mas passam a ser, pois até fazem jeito e desafogam a alma. E o mais engraçado é quem se senta lá, que faz as perguntas e dá as respostas ao longo do processo. Fazer terapia é um acto de coragem, pois desafia certezas, que até então achávamos o que eram “intransitáveis” talvez porque davam alguma segurança e justificavam atitudes nossas. Reconhecer que algo não esta bem, já é um passo importante, tentar compreende-lo e mudá-lo é mais ainda… Diz a tua amiga que o processo é longo, valioso…mas não tem que se sentar no divã para a vida:) Qt a pessoa que a convenceu…isto é a beleza da vida…ela está no caminho dela por algum motivo…diz a tua amiga para explorar mais essa pessoa…quem sabe outros horizontes se abrem! Eu aproveitava!!!

  7. Ferdi Says:

    ela vai gostar, kianda. posso mesmo apostar. também conheço alguém que resistiu o quanto pôde. Quando finalmente aceitou visitar uma analista, ele descobriu que podia ser uma pessoa muito melhor, mais feliz, e que a vida nem precisava ser tão chata. beijú.

  8. kianda Says:

    🙂 Ferdi !!! Beijú.

  9. cafefas Says:

    Olha Kianda diz a ela para se sentar e acomodar-se à vontade, tomar um copo e dar um tempo que a tristeza vai passar. Diz-lhe ainda que o tempo é imenso e que o que vale mesmo é o sentimento e o amor que nós temos no coração…

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