E o pensamento voa

De repente quando li este texto no suplemento “Mutamba” do Novo Jornal enviado como sempre pela minha amiga AL (já que o pai deixou de o fazer, não sei porquê), o meu pensamento voltou ao passado.
O Cacé Cassé é mais velho do que eu é verdade, mas todas estas recordações dos anos 80 são minhas também. Ele mais como interveniente, eu mais como expectadora. E também as saudades da mesma Rádio Nacional. A Gizela?! Que é feito da Gizela?! Lembrar “O Sol” e a Milú, ainda Monteiro.
E o Eduardo? O Cambwengo, tantas histórias teria eu também.
Adorei o texto e tudo o que está fora do texto, por isso aqui fica, acredito que com a licença do Cacé Cassé.

Tinha jurado a mim mesmo aparecer anónimo em meio a esta homenagem que a RNA resolveu fazer-te, através do Top dos Mais Queridos. Sucedeu tanta coisa, o tempo passou tão depressa, chegámos à idade em que começamos a perder alguns dos nossos mais próximos, e a vida tornou-se naquilo que tem sido, geração após geração, o nosso destino: muitas frustrações com muito copo à mistura, desilusões impensáveis há 30 anos atrás, distâncias enormes criadas com quem, por vezes, atravessou parte fundamental desse pedaço de vida junto a nós. Porém, e como é recorrente nestas situações, começaram a passar-me pela tola, imagens de tudo quanto, desde os anos 80 acabámos por, de algum modo construir, num tempo em que, igualito como hoje, ainda não era possível alguém levantar-se e fazer algo original, que não fosse, nesta nossa terra, alimentada ainda pela inveja, pela raiva, pelo complexo, pelo medo, pela incapacidade, omitir ou tentar destruir.

Partir só pelo puro gozo de partir, sempre e quanto mais fica claro que não são capazes de fazer. Não fazer, mas, principalmente, não deixar fazer. Assim crescemos, entre a sorte de termos ambos Pais extraordinários, um punhado de amigos e apoiantes, e uma estrutura como era a da Rádio Nacional, onde se vivia, respirava e transpirava rádio de verdade, num sentido rigoroso de serviço público e não era ainda um grande armazém de venda de consciências e troca mercantil de dinheiros por passagens de discos…

Lembro-me de entrar na CT 1, e da magia do Arriscado e do Ferreira Marques. Do espanto de, em dois, três dias, estarmos ali horas e horas a compor, a idealizar, a sonhar. Afinal, era só aquilo que nós queríamos. A possibilidade de mostrar aos outros, de levar ao público, as coisas bonitas que íamos fazendo nascer, junto com o Bruno, o Levy, depois o Bibi e por aí fora.

O orgulho de ter nos “Caçulinhas da Bola” uma canção nossa, com um poema dito pelo Rui Carvalho – a quem ainda homenageámos dando-lhe o nome do Auditório que ele construiu e que rapidamente foi entregue não sei sequer a quem, fazendo com que a Rádio perdesse logo desde aí um dos seus principais alicerces…. Se calhar, na volta, o importante era que o nome do Rui desaparecesse rapidamente…!!! O disco a vinil saído a ferros, com a ajuda sempre solidária do António Fonseca, da Maria Luísa. A actuação na União dos Escritores, onde pedimos que fosse debatido o que andávamos a cantar e a tocar. As actuações nas Faculdades que começaram, como sempre tem sido, a desagradar aos militantes mais atentos, mais propensos ao controlo e à censura: que é que era isso, jovens a cantarem nas faculdades? Os mesmos de sempre, que hoje, engravatados engrossam o coro de democratas ultra-liberais cuja função é encherem os bolsos e esquecer quem eram, donde vieram, e o que andaram a (des)fazer em nome do zelo e do sentido que sempre tiveram de criados servidores, atentos e obrigados…

Se tivermos tempo e vida, vamos contar um dia todas essas histórias. E lembrar, evidentemente, não só esse lado, o lado do “Dizer Adeus”, que provocou telefonemas de Ministros mais uma vez aos nossos Kotas, quando queríamos apenas cantar, dizer o que sentíamos, o que víamos, o que já, afinal, graças ao Tio Abílio e à Tia Maria, até já suspeitávamos. Mas contar da Gizela, do Ângelo, do Joseca, do João Assunção, e de tantos e tantas que foram passando nas tuas mãos, nascendo para a música pela tua mão. Alguns deles, hoje agradecem a terceiros o que tinham de nos agradecer a nós. É como tudo na vida… Recordar o “Steinway” onde começaste a tocar piano e te chamavam de brincadeira o Bela Bartok de Angola…

Criaste. Foste para longe – por imperativos profissionais e voltaste. Mas construíste: abriram-se caminhos, descobrimos pessoas, contámos as histórias segundo uma verdade que nos foi transmitida por nossos Pais. Agitámos. Incomodámos. Nunca ficámos satisfeitos. Não sei mesmo se em algum momento, fomos felizes. Momentos de felicidade, sim, muitos. Felizes em toda a sua plenitude, nunca, jamais, em tempo algum. Não é possível. Poucos gostam de ver os outros felizes!!! Resta a consolação da consciência tranquila, do sorriso menos aberto, mais calmo e ponderado mas mais seguro, da experiência que todas estas andanças nos trouxe. E sobretudo, acima de tudo, valendo tudo, recordando o nosso gigante Rui Carvalho, a partir do grande Paulo Gracindo e da frase que ele tanto gostava de dizer: “Fi-lo porque qui-lo”…
Até já, meu irmão das estradas da vida.
Carlos Ferreira

Uma resposta to “E o pensamento voa”

  1. cafefas Says:

    Pô Kiandita desta vez tocaste bem lá no fundo. E tanta coisa tinha eu a adicionar a este texto do meu kamba Cassé. Melhor mesmo é ficar quieto para nao dar bandeira… São saudades saudades saudades são saudades !!! Mo mano, mo kota, mo avilo EP… És bué meu irmão…

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