Archive for Fevereiro, 2010

Ravel é que sabia – Margarida rebelo Pinto (adorei)

Fevereiro 8, 2010

A diferença entre ter sexo e saber fazê-lo é mais ou menos a mesma entre apanhar o metro do Intendente para o Rossio e atravessar o Atlântico num voo de longo curso em classe executiva. O sexo pelo sexo resume-se a uma função básica que se cumpre em poucos minutos. O sexo elaborado é outra coisa; é como entrar numa nave espacial, ultrapassar a velocidade da luz e pairar indefinidamente pelo cosmos.

Nem tudo o que dá trabalho também dá prazer e nem tudo o que dá prazer tem de dar trabalho, mas com o sexo, sem um não existe o outro. Para ser bem feito, requer tempo, devoção, técnica, talento e inspiração. Não é para despachar, é para cultivar. Não é para ir a correr, é para fazer devagar. E não é para quem quer receber, mas para quem sabe dar.

Uma amiga minha chama à prática cuidada e actos de prazer exercícios de amor. Dois corpos, mil gestos, um todo. Se o tempo pára mesmo ou os ponteiros invertem o seu sentido, isso nunca vi. Mas acredito, proclamo, professo e subscrevo que na cama, como em tantas outras coisas, o óptimo é inimigo do bom e quem já experimentou seda só volta ao algodão se não tiver outro remédio. Seda é seda. Tão bom como seda só veludo cristal. E o bom sexo tem esse toque, essa magia, esse je ne sais quoi de perfeição que a pele nunca esquece. Ainda que o desejo hiberne, a memória das células está lá, pronta para ser acordada ao primeiro gesto. E são muitas células a chamar para o mesmo lado.

O Bolero de Ravel não é das minhas peças sinfónicas preferidas, mas a sua arquitectura musical agrada-me: a mesma melodia vai sendo repetida languidamente à medida que cada instrumento entra na dança. O início é suave, pianíssimo, como uma canção de embalar, desenvolvendo-se em crescendo, até ao clímax, com a orquestra inteira em toda a sua pujança, terminando em fortíssimo. Em termos musicais chama–se um desenvolvimento amplificador.

O sexo bem executado pode ser isto, uma sucessão de pequenos gestos serenos e sincopados que vão formando um todo cada vez mais forte, cada vez mais intenso, cada vez mais belo. Não interessa tanto o que se faz, mas a maneira como se faz. O que prevalece não é o objectivo, mas tudo o que foi feito para o alcançar. Não há um fim, apenas uma pausa, porque nunca se fez tudo, ainda que o corpo sinta que foi muito longe, para lá da velocidade da luz, algures entre o Olimpo e o Nirvana, o ponto mais alto da meditação que dissolve o ego, no qual o ser consegue abandonar a solidão individual para se abandonar à entrega total.

A sensação de dissolução não tem preço nem explicação. É como o talento, que não tem culpa nem mérito. A prática de sexo de alta qualidade encerra uma sabedoria intuitiva que se vai cultivando com tempo e dedicação. E, se no meio de tudo isto, ainda houver amor, então chegamos ao Pleno, essa terra prometida entre o Olimpo e o Nirvana, que existe dentro de nós. Mas não basta querer, é preciso saber. E o Ravel é que sabia.

Lá fora

Fevereiro 4, 2010

Kianda 2010-02-03

 

E do céu caem gotas … e gotas … e gotas … que somadas a tantas outras escondem a lua …

Conheciam?

Fevereiro 2, 2010

Por causa de uma triste notícia, o terramoto do Haiti, ouvi falar de Zilda Arns. Brasileira que infelizmente perdeu a vida na tragédia. Fundadora da Pastoral Criança, dedicou a vida existência a tentar minorar o sofrimento dos que têm menos e a evitar o desperdício da vida. Até ao último minuto…tava em Port’ Principe para uma palestra e foi no fim dessa palestra que se deu o terramoto e ela ficou por baixo dos escombros de um edifício de 3 andares em frente à Igreja Sacré Coeur de Tugeau!
Fiquei apaixonada pela história desta mulher, o extraordinário sucesso do programa criado por Zilda Arns, em conjunto com o arcebisto de Salvador, Geraldo Majella admira pela simplicidade, baseia-se na adopção, por parte das mães de medidas simples mas que podem salvar a vida dos seus filhos.

O mérito da Pastoral da Criança, que se vale do trabalho voluntário – e que ensina as mães a cuidar melhor do desenvolvimento dos filhos em vez de torná-las dependentes de uma organização que o faça – para fazer chegar a quem precisa, medidas simples e com eficácia comprovada, como a aplicação do soro caseiro (2 colheres de sopa de açúcar e uma de sal dissolvidas em 1 litro de água limpa) em crianças desidratadas e a ingestão da multimistura (farinha que aproveita folhas e grãos) para combater a desnutrição.

Quando iniciaram o trabalho, há muitos anos atrás, no Paraná, a mortalidade infantil baixou de 127 mortes em 1000 nascimentos, para 28 mortes.

Parece simples, não é?! Então porquê?!

CAN 2010

Fevereiro 1, 2010

Chegou ao fim a festa do Futebol Africano com um justo vencedor, o Egipto. Realmente jogar futebol é isto, o resto é conversa e pontapé para a frente.
Em relação à nossa selecção gostei do trabalho, gostei do que vi mas isto seria apenas o começo, o princípio, a base, muito trabalho terá (teria?) que ser feito agora se queremos chegar mais longe no CAN daqui a 2 anos.
Ao ler a Horagá no NovoJornal lembrei-me do que já tantas vezes repeti, cadê o desporto nas escolas? Cadê os nossos campos de areia vermelha para aquelas peladinhas de fim de semana? O campo da Rádio?

Como poderíamos pretender sonhar com um milagre se, somos alérgicos ao fomento do desporto escolar?

Como poderíamos pretender sonhar com um milagre se, os espaços livres, outrora palco da prática desportiva, foram engolidos pela voracidade do betão armado?

Que fazer então? Nada mais, nada menos do que inspirarmo-nos na experiência organizativa e na cultura futebolística do passado para voltar a brotar talentos como José Águas, Dinis, Jacinto João, Chico Negrita, Jordão, José Pedro, Alves, N’Dunguidi, Jesus e outros. De outra forma, por mais petrodólares que tenhamos à nossa disposição para desperdiçar, não vamos lá. De outra forma, continuaremos a fazer dos Can’s, um opíparo banquete como este que serviu para ajudar a engordar as contas bancárias de muitos cortesãos que se lambuzaram a grande e à francesa com a festança do desperdício…